v. 3, n. 1 (2014)

Janeiro-Junho

Editorial RGSS Vol.3, N.1 – 2014

 

Em 2013, uma pesquisa conduzida no Brasil pela Nielsen revelou que a saúde foi apontada como a maior preocupação dos brasileiros, superando os itens segurança e educação (Nielsen, 2013). Mas qual seria o conceito que a nossa população tem sobre saúde?

Apesar de haver várias definições para saúde, saúde comumente é entendida como um estado de bem estar ou de ausência de doença. Em 1947, a Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentou uma definição de saúde bastante abrangente: “A saúde é um estado de completo desenvolvimento físico, mental e bem-estar social e não meramente a ausência de doença e enfermidade" (World Health Organization, 1948). Ocorre que essa definição é considerada por muitos como inatingível ao incluir o termo “completo” e que seria indissociável da sensação de felicidade, o que é subjetivo. Porém há que se considerar que a definição da OMS foi elaborada num momento especial da humanidade recente - logo após o término da Segunda Guerra Mundial e que trouxe grandes avanços ao explicitar que a ausência de doença ou enfermidade sem a percepção da experiência era inadequada para qualificar a saúde (Saracchi, 1997).

Um outro conceito desenvolvido por Saracchi (1997) incorpora as questões contemporâneas de direitos humanos, igualdade e justiça e parte das premissas da OMS (1997), definindo a saúde como "um estado de bem-estar, livre de doença ou enfermidade, e um direito humano fundamental e universal”. Tendo por base esses conceitos, as ações a serem desenvolvidas para que a percepção de saúde seja modificada entre os brasileiros, é tarefa complexa, multisetorial e de difícil execução a curto prazo.

Inicialmente há que se compreender o que é um sistema de saúde e utilizando também uma definição da OMS, “um sistema de saúde é a somatória de soma total de todas as organizações, instituições e recursos cujo objetivo principal é melhorar a saúde”. Um sistema de saúde precisa de pessoal, financiamento, informação, suprimentos, transporte, comunicações e gestão efetiva. Na prática precisa oferecer serviços de saúde que atendam as pessoas de modo adequado e igualitário em todo o país. Neste contexto, os serviços de saúde são percebidos como bons quando oferecem serviços seguros, sem morosidade, quando as intervenções de saúde são de alta qualidade, eficazes para aqueles que deles necessitam, quando e onde for necessário, com o mínimo desperdício de recursos.

Deve-se considerar que cada sistema de saúde é único em seu ambiente social e cultural, no entanto, há elementos comuns que são obrigatórios para o seu correto funcionamento. Esses elementos-chave são: a questão dos custos, a qualidade, o acesso à saúde e a incorporação de inovação. Portanto, para que um sistema de saúde contemple a população com o que é desejado, é necessário não somente um financiamento que garanta as suas ações rotineiras nos diferentes níveis de atenção à saúde, mas que esteja apto a responder com a mesma presteza e qualidade às situações de catástrofe e desastres naturais que possam assolar o Brasil. Assim, informações atualizadas sobre a situação da saúde da população brasileira, dos aspectos epidemiológicos sobre as doenças mais frequentes, dos métodos diagnósticos e terapêuticos empregados, dos recursos de saúde disponíveis e em condições de utilização tornam-se cruciais para o planejamento de saúde pelo gestor.

O sistema de saúde brasileiro é caracterizado pela universalidade, integralidade e hierarquização de suas ações. Um dos benefícios de um sistema de saúde integrado é a capacidade de implementar mudanças em grande escala. Os cuidados de saúde estão mudando em um ritmo rápido, e é importante se concentrar em melhoria contínua da qualidade como parte da prestação de serviços em saúde.

No Brasil, embora nos últimos anos os investimentos na saúde tenham sido maiores que a inflação no período (Câmara dos Deputados, 2011) não se pode considerar que a saúde brasileira tenha atingido alto patamar de qualidade até o momento em todas as suas áreas de abrangência.  Para que sejam alcançados níveis de excelência na assistência à saúde, diferentes estratégias em saúde podem ser colocadas em prática, contemplando a partir do diagnóstico da situação da saúde em instituições públicas e privadas dos mais diversos níveis de complexidade, o planejamento e operacionalização de serviços, a apropriada alocação de recursos finalizando com a avaliação do desempenho. Com isso existe a possibilidade de, utilizando ferramentas de gestão disponíveis e, paralelamente analisando os resultados observados em pesquisas com enfoque prático, estabelecer novas metas, contribuindo para a redução da iniquidade e enfim, entrando em ciclo continuado de melhoria da saúde.

Estratégias têm sido desenvolvidas com o objetivo de alavancar a qualidade no setor da saúde, em especial da saúde pública. Neste número da Revista de Gestão, são apresentados resultados da avaliação da introdução de indicadores de qualidade em unidades básicas de saúde (IDSUS) nessa área tão carente de subsídios científicos que contemplem aspectos práticos de estratégias de gestão (Forte & Nobre, 2014).

Finalizando, esperamos que as contribuições aqui elencadas possam motivar os envolvidos na elaboração de políticas de saúde, os profissionais e os gestores a desenvolver e operacionalizar pesquisas na área para que a população brasileira tenha mais saúde.  

 

Marcia Cristina Zago Novaretti

Editora Científica

César Augusto Biancolino

Editor Adjunto

 

 

 

Referências Bibliográficas

Nielsen. Saúde é a maior preocupação do brasileiro, aponta pesquisa da Nielsen. Pesquisa de Confiança do Consumidor do 1º trimestre de 2013. Recuperado Janeiro 4, 2014, de http://www.nielsen.com/br/pt/nielsen-pressroom/2013/saude-e-a-maior-preocupacao-do-brasileiro-aponta-pesquisa-da-nielsen.html.

WHO. Preamble to the Constitution of the World Health Organization as adopted by the International Health Conference, New York, 19-22 June 1946, and entered into force on 7 April 1948.

Saracci R. The World Health Organization needs to reconsider its definition of Health. BMJ 1997;314:1409-10.

Brasil. Câmara dos Deputados. Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira. Núcleo de Saúde, 2011. Recuperado Agosto 2, 2014, de http://www2.camara.leg.br/a-camara/estruturaadm.

Forte L.M, Nobre, F.C. Avaliação do índice de desempenho dos SUS (IDSUS) nos municípios do RN com vistas à definição de estratégias de gestão. RGSS 2014;1, 82-93.

Sumário

Artigos

Revisão Compreensiva de Logística Hospitalar: Conceitos e Atividades PDF
Thomás Silva Oliveira, Marcel Andreotti Musetti 01-13
Innovation in Hospitals and the Service-Dominant Logic PDF
Eduardo Raupp de Vargas, Kleber Fossati Figueiredo, Claudia Affonso Silva Araujo, Cariza Teixeira Bohrer, Josivânia Silva Farias 14-26
Health Professionals and Organizations Lack of Awareness Regarding the Information Technology Resources Usage in Front of Their Major Beneficiary: Patients PDF
Jayr Figueiredo de Oliveira 27-39
Modelo Conceitual de Mensuração de Desperdícios em Hospitais Privados. PDF
Denis Dall Asta, Antonio Pires Barbosa 40-56
Inovação em Empresas Prestadoras de Serviços de Saúde: Uma Contribuição através da Metodologia de Kano PDF
Cleiton Rodrigues de Vasconcelos 57-69
Regionalização do SUS no Grande ABC: Compreendendo a Relação entre Oferta e Demanda de Serviços de Saúde. PDF
Edson Coutinho da Silva, Mara Helena de Andrea Gomes 70-81
Avaliação do Índice de Desempenho do SUS (IDSUS) nos Municípios do RN com Vistas à Definição de Estratégias de Gestão PDF
Lianny Maria Forte, Fábio Chaves Nobre 82-93
Nível de Prontidão Técnica das Intervenções Apropriadas para Técnicos de Enfermagem: Levantamento em Quatro Hospitais da Cidade de São Paulo PDF
Antonio Sergio Silva, Aline Bento Ambrósio Avelar, Milton Carlos Farina, Valdinea Almeida Santos 94-104